Nutshell

· Ian McEwan · Amostra de Tradução
Nutshell Ian McEwan

Voice

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So here I am, upside down in a woman. Arms patiently crossed, waiting, waiting and wondering who I’m in, what I’m in for. My eyes close nostalgically when I remember how I once drifted in my translucent body bag, floated dreamily in the bubble of my thoughts through my private ocean in slow‑motion somersaults, colliding gently against the transparent bounds of my confinement, the confiding membrane that vibrated with, even as it muffled, the voices of conspirators in a vile enterprise. That was in my careless youth. Now, fully inverted, not an inch of space to myself, knees crammed against belly, my thoughts as well as my head are fully engaged. I’ve no choice, my ear is pressed all day and night against the bloody walls. I listen, make mental notes, and I’m troubled. I’m hearing pillow talk of deadly intent and I’m terrified by what awaits me, by what might draw me in.

I’m immersed in abstractions, and only the proliferating relations between them create the illusion of a known world. When I hear ‘blue’, which I’ve never seen, I imagine some kind of mental event that’s fairly close to ‘green’ – which I’ve never seen. I count myself an innocent, unburdened by allegiances and obligations, a free spirit, despite my meagre living room. No one to contradict or reprimand me, no name or previous address, no religion, no debts, no enemies. My appointment diary, if it existed, notes only my forthcoming birthday. I am, or I was, despite what the geneticists are now saying, a blank slate. But a slippery, porous slate no schoolroom or cottage roof could find use for, a slate that writes upon itself as it grows by the day and becomes less blank. I count myself an innocent, but it seems I’m party to a plot. My mother, bless her unceasing, loudly squelching heart, seems to be involved.

Seems, Mother? No, it is. You are. You are involved. I’ve known from my beginning. Let me summon it, that moment of creation that arrived with my first concept. Long ago, many weeks ago, my neural groove closed upon itself to become my spine and my many million young neurons, busy as silkworms, spun and wove from their trailing axons the gorgeous golden fabric of my first idea, a notion so simple it partly eludes me now. Was it me? Too self‑loving. Was it now? Overly dramatic. Then something antecedent to both, containing both, a single word mediated by a mental sigh or swoon of acceptance, of pure being, something like – this? Too precious. So, getting closer, my idea was To be. Or if not that, its grammatical variant, is.

Tradução: Daniela Cristina

Second Voice

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Então aqui estou eu, de cabeça para baixo dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem eu estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando me lembro de como vaguei no meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha dos meus pensamentos em um oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes do meu confinamento, a membrana cúmplice que vibrava, embora abafasse, as vozes de conspiradores envolvidos em uma vil empreitada. Isso foi na minha juventude despreocupada. Agora, em posição totalmente invertida, sem um centímetro de espaço para mim, joelhos apertados contra a barriga, meus pensamentos e minha cabeça estão de todo ocupados. Não tenho escolha, meu ouvido está pressionado noite e dia contra paredes ensanguentadas. Escuto, tomo notas mentais, estou inquieto. Ouço conversas de alcova sobre intenções letais e me sinto aterrorizado com o que me aguarda, com o que pode me consumir.

Estou imerso em abstrações, e as relações proliferantes entre elas criam a ilusão de um mundo conhecido. Quando ouço a palavra “azul”, que nunca vi, imagino um tipo de acontecimento mental muito próximo de “verde” — que também nunca vi. Considero‑me um inocente, sem compromisso com lealdades e obrigações, um espírito livre, apesar da minha limitada sala de estar. Ninguém para me contradizer ou repreender, sem nome nem endereço anterior, sem religião, sem dívidas, sem inimigos. Minha agenda, se existisse, registraria apenas meu futuro dia de nascimento. Sou, ou era, apesar do que dizem agora os geneticistas, uma lousa em branco. Mas uma lousa porosa e escorregadia, inútil para o uso em sala de aula ou no telhado de uma cabana, uma lousa que escreve por si mesma à medida que cresce a cada dia e se torna menos branca. Considero‑me inocente, mas tudo indica que participo de uma conspiração. Minha mãe, abençoado seja seu incansável e turbulento coração, parece estar envolvida.

Parece, Mãe? Não, está. Você está. Está envolvida. Sei desde o meu início. Deixe que eu o evoque, aquele momento de criação que chegou com meu primeiro pensamento. Há muito tempo, muitas semanas atrás, meu sulco neural se fechou sobre si mesmo e se transformou em minha espinha, e meus muitos milhões de jovens neurônios, tão ativos quanto bichos de seda, fiaram e teceram, com seus axônios em forma de cauda, o lindo tecido dourado da minha primeira ideia, uma noção tão simples que agora em parte me escapa. Seria o eu? Autoadmiração excessiva. Seria o agora? Teatral demais. Ou seria algo que antecedia ambos, que continha ambos, uma só palavra acompanhada de um suspiro ou de um lampejo mental de aceitação, de puramente ser, algo — assim? Muito preciosismo. Então, chegando mais perto, minha ideia era Ser. Ou, se não isso, sua variante gramatical, é.


Nutshell © 2016 Ian McEwan  ·  Tradução: Daniela Cristina